MEU VISTO DE ESTUDANTE PARA FRANÇA: o início do sonho

Aqui descrevo minha pequena saga para conquistar um visto de estudante para França. Dividi o texto em três partes: planejamento, Campus France e visita consular. Embora burocrático, é relativamente fácil conseguir um visto.

Nota informativa: brasileiros em viagens turísticas não precisam de visto para entrar e permanecer, por até 90 dias, na França, que faz parte do espaço Schengen de livre circulação na Europa.


PRIMEIRA PARTE: Escolha do visto a pleitear

O processo é longo, funciona como um preparatório intensivo para viver com a burocracia francesa. A primeira etapa consiste na escolha do visto a pleitear. Há várias opções de visto, cujas explicações detalhadas podem ser encontradas nos sites dos consulados da França no Brasil.

Como eu pretendia permanecer 01 (um) ano na França, parti para os vistos de longa duração, com validade de título de estadia (em francês, Visa de Long Séjour Valant Titre de Séjour -VLS-TS), classificados dessa forma aqueles com validade superior a 6 (seis) meses.

A lista dos vistos de longa duração pode ser consultada nos sites dos consulados (clique aqui para verificar a lista). Esses vistos somente podem ser requeridos fora do território francês, em Consulado da França localizado no país de residência. Se a pessoa entra como tourista na França, não pode pleitear em solo francês um visto de estudante, por exemplo. Seria necessário retornar ao Brasil para protocolar ali esse requerimento.

Diante das possibilidades, fiquei dividida entre o visto de estudante (visa étudiant) e o visto de visitante (visa visiteur). Rapidamente, desisti do visto de visitante, pois exige comprovantes de renda elevada, os quais eu não dispunha. São as chamadas “garantias financeiras regulares e suficientes à duração”, algo em torno de 1.138,17 euros líquidos mensais, equivalente ao salário mínimo local (SMIC). O visto de visitante também não permite o desempenho de qualquer atividade remunerada na França. É um visto para pessoas em férias sabáticas, que vivem de renda ou aposentadas.

Sem muitas opções, parti para o visto estudante. Como eu não era matriculada em nenhum curso universitário no Brasil ou na França, abracei-me na possibilidade do visto para estudante da língua francesa. Feita a escolha, debrucei-me sobre as confusas instruções para a obtenção do visto.

Nesse ponto, é importante primeiro conhecer a circunscrição dos consulados para saber a qual você deverá requerer o visto. A documentação varia de acordo com o consulado. Abaixo, imagem da distribuição territorial válida em 2014:

Circunstrições consulares França

Verde: Consulado em Brasília

Vermelho: Consulado em Recife

Azul: Consulado no Rio de Janeiro

Amarelo: Consulado em São Paulo

Como eu morava no Maranhão, meu pedido de visto deveria ser realizado na Seção Consular da Embaixada da França em Brasília. Embora o Maranhão já estivesse na circunscrição do Consulado em Recife, para vistos de estudantes havia essa exceção. Assim, conhecido o consulado, foi hora de providenciar a lista de documentos.


SEGUNDA PARTE: Processo Campus France e inscrição em escola de línguas

O processo para obtenção do visto de estudante é complexo, divide-se em duas etapas. A primeira, chamada pré-consular, é realizada no Campus France. A segunda, chamada consular, desenrola-se no consulado, como o nome adianta.

A fase pré-consular é subdivida da seguinte forma:

Etapa 1 Criação do dossiê Campus France

Etapa 2 Preenchimento das 4 partes do formulário online

Parte 2.1: Formação

Parte 2.2: Línguas

Parte 2.3: Motivações

Parte 2.4: Validação

Etapa 3 Envio da documentação por correio

Etapa 4 Pagamento a taxa Campus France

Etapa 5 Agendamento da entrevista pré-consular

(fonte: site Campus France)

Antes de solicitar o visto de estudante, portanto, é necessário acessar o site do Campus France Brasil e montar um dossiê de candidatura. Para estudantes da língua francesa, o dossiê pode ser escrito em português, embora eles recomendem que seja escrito em francês. Montei o meu inteiramente em português, pois não falava quase nada de francês.

Ao lado das minhas informações pessoais (com foco na parte acadêmica), me foi solicitado um curriculum vitae e um pequeno projeto profissional. Nesse último ponto, preenchi uma área com os seguintes tópicos: “Projeto Profissional”, “Projeto de Estudos/Pesquisa”, “Minhas Motivações”.

Aprendi, nesse processo, que eles buscam sobretudo coerência dos candidatos. Resolvi então bancar a sincera, fiz meu dossiê de forma concisa e franca. O dossiê deve primar pela objetividade, mostrando o porquê dos estudos na França com base num histórico acadêmico/profissional. É bom lembrar que, uma vez finalizado o dossiê, há uma entrevista pessoal, cuja única função é verificar a consistência das informações fornecidas, com apresentação dos documentos originais (falarei abaixo sobre a parte da entrevista).

Nesse momento, finalmente percebi que eu precisava de um plano de estudos. Até ali, meu único projeto era morar na França, ponto.

Primeiro, eu deveria me inscrever num curso de francês. Há algumas exigências para a escolha do curso: a) ele deve ter carga horária de, no mínimo, 20 horas semanais; b) deve possuir certificado de qualidade FLE.

Após uma pesquisa entre escolas de línguas, escolhi a Aliança Francesa de Paris (Alliance Française Paris Ilê-de-France). Busquei informações na Aliança de São Luís, onde tinha me matriculado fazia pouco tempo (fiz o A1 em cursos intensivos).

O diretor, responsável pelos intercâmbios, me recebeu muito bem, tendo me informado que eles intermedeiam as inscrições dos alunos, sem custos adicionais. Aliás, eles conferem um desconto de 12% (doze por cento) para alunos.

A Aliança de Paris aceita inscrições pelo período máximo de 36 semanas, o equivalente a 09 meses. Mesmo que minha intenção fosse permanecer uma ano, acabei me conformando com o período encolhido. Preenchi então o formulário com o auxílio do diretor, o qual foi encaminhado no mesmo momento. Após 02 (duas) semanas, a Aliança de Paris enviou a fatura e o certificado de inscrição.

A fatura me perturbou por uns dias. Somava uma quantia elevada. O alto valor me fez questionar todo o sonho de morar um ano em Paris. Valeria tanto investimento esse sonho? Ou seria um devaneio? Muitas análises pessoais e financeiras foram feitas. Cálculos, projeções, economias, reflexões sobre o sentido da vida… e foi assim que, finalmente, eu decidi que iria, ainda que sem economias.

Esse processo de autoconfirmação das minhas escolhas demorou uns dias. Nesse ínterim, resolvi finalizar a etapa do Campus France. Conclui meu dossiê e enviei a documentação requerida para São Paulo via Sedex. Encaminhei cópias simples dos seguintes documentos (os originais são apresentados apenas na entrevista pré-consular):

  • Cópia do RG ou do Passaporte. Envie somente a página que contém a foto, número do passaporte e dados pessoais.
  • Breve carta de apresentação. A carta pode ser manuscrita ou digitada, escrita em português ou em francês. O modelo é fornecido pelo Campus France.
  • Cópia do seu último diploma superior ou atestado de matrícula no ensino superior. Caso não possua, envie uma cópia simples do diploma de conclusão de ensino médio e comprovante de acesso ao ensino superior (aprovação no vestibular).
  • Cópia da carta de pré-inscrição na instituição francesa de ensino. Cartas de pré-inscrição ou inscrição devem conter, no mínimo, o nome completo do estudante, a data de início, de término e a carga horária do curso.

Como vocês puderam observar, o comprovante de pagamento do curso de francês deveria ser apresentado somente no Consulado, na fase posterior. Para finalizar a etapa pré-consular, bastava ter o certificado de inscrição, que eu já dispunha.

Pois bem. Na própria página do Campus France recebi o aceite da documentação. Imprimi posteriormente o boleto da taxa de processamento do dossiê, no simbólico valor de R$335,00 (trezentos e trinta e cinco reais). Tristinha depois do pagamento, enviei o comprovante por e-mail, como recomendado.

Confirmado o pagamento, recebi as orientações para agendamento da entrevista pré-consular. Essa entrevista é obrigatória para estudantes inscritos em escolas de línguas

(Link com informações do Campus France: com entrevista).

Para minha surpresa, a entrevista seria realizada pelo diretor da Aliança Francesa de São Luís, o mesmo que tinha realizado minha inscrição no curso em Paris. O agendamento foi feito por e-mail, sem muitas formalidades.

A entrevista foi uma etapa sem sentido para mim. Eu deveria explicar meus projetos, mas o entrevistador era justamente a pessoa que tinha me auxiliado até então. Ele sabia, tanto quanto eu, meus planos em Paris. Na entrevista, feita em português, conversamos sobre minha futura experiência. Ele me forneceu dicas sobre a vida na França e me desejou boa sorte. A entrevista é realizada em francês apenas para aqueles que pretendem entrar no sistema de ensino superior francês (licence, master ou doctorat).

Nem preciso mencionar que fui aprovada na entrevista. Com essa aprovação, foi emitido meu certificado do Campus France e recebi as orientações para o agendamento da minha entrevista no Consulado em Brasília.


TERCEIRO PASSO: Etapa consular 

Com o número do dossiê Campus France em mãos, agendei minha visita na Seção Consular da Embaixada da França em Brasília para 02/11/2013. O agendamento foi realizado pela internet, meio obrigatório para essa finalidade. Marquei em uma data limite, já que eu viajaria em 31/12/2013. Eles aconselham, em geral, uma antecedência de 03 meses para a visita, levando-se em consideração a data da viagem.

Comecei, no mesmo dia, a preparar a documentação para o visto, a qual elenco abaixo:

  • Inscrição ou pré-inscrição (original) do curso de idioma francês reconhecidos pelo governo francês com carga horária mínima de 20 horas (a inscrição ou pré-inscrição que não seja de nível universitário deve ser apresentada com o recibo do pagamento)
  • Passaporte (o passaporte deve ter validade de três meses após a data do vencimento do visto)
  • 1 Formulário (retirar no Consulado ou no site)
  • 2 Fotos 3,5 x 4,5 fundo branco, sem data, idênticas e recentes
  • Cópia do(s) diploma(s)
  • Número de dossiê CampusFrance
  • Justificativa de residência na França
  • Declaração de financiamento do pai ou da mãe comprometendo-se em enviar no mínimo 600 Euros mensais, com firma reconhecida em cartório.
  • Última declaração de imposto de renda
  • Extratos bancários dos 3 últimos meses
  • Declaração de autofinanciamento, com firma reconhecida em cartório
  • Taxa em dinheiro paga em Reais (1 ano = 50 euros , 6 meses = 50 euros)” (Fonte: site da Embaixada da França)

Os modelos das declarações de autofinanciamento e de financiamento parental são disponibilizados pelo Consulado na internet. Fiz as duas declarações, pois fiquei com medo das minhas economias serem insuficientes. Em razão disso, na minha visita levei tanto meus comprovantes de renda quanto os do meu pai. Preferi o excesso.Os documentos devem ser originais acompanhados de uma cópia simples. Apenas as declarações de financiamento precisam conter firmas reconhecidas em cartório.

Pois bem. Providenciados os documentos de renda, parti para o pagamento do curso e para o alojamento.

Quatro meses antes, eu tinha começado a pesquisar apartamentos em Paris. Nessa altura, essa questão estava resolvida. Como a busca foi longa, conto em outro post.

Em suma, o apartamento foi locado no site Paris Attitude pelo período de 04 meses. Para o visto, eles exigem comprovante de 03 meses de alojamento. Paris Attitude é uma imobiliária que oferece apartamentos para curtas temporadas, há muitas opções. Finalizado o negócio, utilizei como comprovante de alojamento o contrato de locação.

Quando tudo estava pronto, fui então ao banco pagar meu curso. Imaginei que seria simples, que engano! Levei a fatura ao banco com os dados para transferência internacional (IBAN e SWIFT). Minha gerente olhava, olhava, sem fazer a mínima ideia de como proceder. De qualquer forma, preenchi uma autorização de transferência e fui informada que a transação seria finalizada em 02 ou 03 dias.

Passaram-se os dias, foi quando liguei para a central de câmbio do Santander. Para minha surpresa, me disseram que não havia qualquer pedido de transferência e que tampouco poderia ter, uma vez que eu não era cadastrada para operar em câmbio. O rapaz gentilmente me explicou o procedimento completo e, com essas informações, no outro dia fui ao banco.

Novamente no banco, fiz meu cadastro para operar em câmbio, o qual demorou uns três dias para ser aprovado. Após, preenchi uma nova autorização de transferência. Preenchi sozinha, a partir de informações que li na internet, uma vez que a gerente não sabia como proceder. Fiquei profundamente decepcionada com o Santander. Ela era gentil, mas visivelmente não obteve qualquer treinamento, tampouco dispunha de condições adequadas de trabalho. Sozinha, atendia uma multidão de clientes. Em razão das mazelas do banco, a transferência demorou 15 dias para ser finalizada, exatamente em 03/11/2013.

Infelizmente, tive que alterar a data da minha visita ao consulado. Com o atraso do banco, transferi a visita para 16/11/2013. Essa transferência conferiu contornos dramáticos ao meu visto, restava pouco tempo para minha viagem.

Na véspera da visita, viajei para Brasília. Cheguei cedo no consulado, antes mesmo de abrir. A minha entrevista estava marcada para 9h15, a ansiedade era tanta que cheguei 8h00. Coloquei os documentos todos em uma pasta, ao lado das fotos nos padrões franceses.

Exatamente no horário, fui chamada ao balcão para entregar os documentos. Basicamente, a funcionária do consulado recolheu a documentação e as minhas impressões digitais. Eles eventualmente tiram foto do postulante, mas no meu caso a foto que levei foi escaneada.

A atendente é muito simpática, conferiu cuidadosamente todos os meus documentos. Disse que era importante tudo estar ali para não atrasar a emissão do visto. Eu tinha levado muitos comprovantes de renda, ela me aconselhou a deixar todos. Quando ela finalizou o check-list, reteve meu passaporte e me entregou um formulário que eu deveria apresentar na França no OFII – Office Français de l’Immigration et de l’Intégration, dentro dos três meses subsequentes à minha chegada. No mesmo momento, ela me informou que meu visto ou a resposta seriam encaminhados para a Aliança Francesa de São Luís. O prazo de espera seria de 2 semanas a 2 meses.

Após duas semanas, comecei a ligar para a Aliança Francesa. Em exatos 17 dias, eles me ligaram para informar que meu visto tinha chegado! Fui no mesmo momento buscá-lo, a felicidade era imensa! O meu sonho começava a se materializar.


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